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Filhos de um Deus Menor Parte 2

Quanto recebe mensalmente um modesto pensionista neste belo jardim à beira mar plantado? Ou melhor dizendo um pensionista neste pinhal pelas Serras do Interior espalhado?Pouco é certo! Mas nesta tragédia grega, com requisitos de modernidade e cobertura democrática, pode ainda haver quem pense em piorar as coisas. Tal como já havia sido dito, são apenas “coisas do mundo retalhos da vida”

                        Mas vamos ao que é importante. A Caixa Geral de Depósitos, que como todos sabem é a quase Babilónia dos poleiros do Estado, está a enviar uma carta aos seus clientes mais modestos, lembrando que a crise actual tem que ser combatida com o pagamentos das despesas de manutenção de conta.Não é bem isto mas quase!Para que tal não aconteça, o destinatário da dita carta, que se tornou cliente muitas vezes à força, tem que manter um saldo médio mensal de cerca de 1000 €. Leram bem 1.000€.

Como toda a boa lábia política, ao cliente é reafirmado o bom serviço da instituição, nomeadamente no que diz respeito a qualidade e preço. No entanto, se tiver aplicações ou coisa parecida, pode também usufruir da isenção das despesas de manutenção da conta, sendo que, e como é sobejamente sabido, essas aplicações não estão ao alcance da esmagadora maioria dos clientes do Banco do Estado. 

Como todos sabemos uma boa parte dos pensionistas portugueses são quem usa a CGD no recebimento das suas “fabulosas” reformas.

Degradante não seria a circunstância, se muitos e muitos dos que recebem através da CGD não fossem a isso obrigados pela Segurança Social, e o seu magro rendimento mensal não fosse de cerca de 243,45 €. Ou seja, pouco mais de 7 € diários. Seria de aceitar tal facto, se muitos e muitos dos “clientes forçados” da CGD, recebessem regalias “obscenas”, palavras de um antigo estadista, e a instituição não apresentasse anualmente lucros fabulosos cujos únicos beneficiários são os administradores de topo tratados como autênticos príncipes das arábias.

Nesta faceta brutal de um capitalismo selvagem, mascarado de democracia, tem que haver alguma ponta solta onde os “filhos de um deus menor” se possam agarrar com unhas e dentes. As eleições seriam uma “boa ponta”, não fosse a certeza que os castigados e os eleitos, misturados no mesmo saco a levarem porrada às cegas levariam sempre sem injustiça. Ou por outras palavras, “juntem todos no mesmo saco e batam pois acertam sempre num culpado”.

A muitos pensionistas, resta apenas pagar a manutenção da conta ou então não comer durante 3 meses e assim assegurar a média que os senhores pretendem. 

Francamente......!

Filhos de Um Deus Menor

Meu pai como muitos dos nossos pais, entregou à terra mãe praticamente todos os “bons dias” da sua existência. As madrugadas eram ainda meninas, e já o serrano calcorreava caminhos de cabras para assistir às pequenas leiras, que muitas vezes eram o único sustento das famílias numerosas de tempos idos. Pouco a pouco, com o Estado divorciado das Serras da Pampilhosa, nasceram aldeias, criaram-se filhos, e ainda havia tempo para cuidar da alma, ainda que o corpo moído pedisse umas horas de descanso. Era assim, não tenhamos nunca duvida que a vida dos que viviam nas serras, era dura como dificilmente se pode imaginar.

Encimados sempre pelo lema, “antes partir que vergar”, lá se foram “vergando” à dura realidade que a vida lhes proporcionava.

Hoje, os que felizmente ainda convivem connosco, têm uma paga amarga, diria mesmo indigna. São votados a uma existência tão degradante e miserabilista que assusta os mais frios e preparados. Veja-se por exemplo os lares. Homens e mulheres cuja vida sempre foi uma actividade constante a labutar na terra, são sedados com medicamentos para que proporcionem menos trabalho a quem tem que os apoiar e cuidar. Não é invulgar encontrar nos chamados Lares para a Terceira Idade, autênticos mortos vivos, adormecidos artificialmente por medicação inadequada para quem ao longo da vida tomou apenas Aspirina ou coisa parecida.

Os poucos que têm a ventura de ser tratados como gente, têm nos filhos a sua praça forte, contra as contrariedades de governos que desgovernadamente gerem o dinheiro dos contribuintes, e diariamente atentam contra a dignidade dos idosos, mais parecendo que estes são “filhos de um deus menor”.

Basta escutar com atenção a “lábia” dos ministros deste governo, há sempre uma explicação, mais ou menos eloquente, para cada disparate que tem sempre dois objectivos pré definidos. Ou são retirados privilégios aos contribuintes ou os contribuintes têm que entregar mais “privilégios” aos cofres do estado; perdão, Estado, está mais de acordo.

O que se passa a seguir é digno de um filme de ficção. As populações revoltam-se e reivindicam, mas estoicamente os políticos mantêm-se firmes. Apetece perguntar:

- Mas que história vem a ser esta, não foram as populações que os colocaram no poleiro? Então respeitem as populações!

Casos de falta de respeito para com os que contribuem são muitos e seria cansativo enumerar. Mas há dois exemplos que não podemos, nem devemos, calar.

Meu pai, como muitos pais “filhos de um deus menor”, trabalhou uma vida inteira e morreu com uma mísera reforma, que só não foi mais miserável porque um dos seus muitos filhos lhe proporcionou condições para acesso a mais alguns “contos de réis”. No outro lado da balança, estão homens e mulheres cuja idade está muito longe da reforma, e pelo simples facto terem sido deputados reforma-se airosamente e vão trabalhar para empresas que muitas vezes beneficiaram das leis que eles enquanto deputados fizeram pensando no poleiro futuro.

Serão estes filhos de um Deus diferente?

Meu pai, para que o pão não faltasse em casa, resolveu um dia transportar volfrâmio, que o mais provável era ser ilegal naquela época. Foi preso, pagou pela ousadia de querer matar a fome aos filhos.

Um ministro, enquanto ministro, faz contrato milionário entre o Estado e um grupo privado. O Tribunal de Contas vem dizer que o dito contrato é altamente desfavorável ao Estado e nada se faz. Hoje esse senhor é presidente ou coisa parecida do consórcio que fez o contrato com o Estado.

Será este o exemplo de um “filho de um Deus maior”?

Pedófilos libertados, leis cujo único intuito é facilitar a vida a prevaricadores, atentados ao sistema de saúde, estádios de futebol, e nós aqui calmamente sentados à espera que um outro qualquer, pior que o anterior, ocupe o lugar. Será que são “detalhes da vida”, ou conformismo de “filhos de um deus menor”?

O VELHO DA SERRA IV

O VELHO DA SERRA IV

 

É Junho, os contornos das Serras da Pampilhosa, começam a mostrar-se menos agrestes e a depressão que se abateu sobre os povos da Pampilhosa começa a suavizar-se à medida que o verde se atreve a sobrepor-se ao negro. A mãe natureza, na sua eterna renovação encarrega-se lentamente de esconder o deprimente cenário que restou da calamidade do ano passado.

Foi em Agosto de 2003 que o “Velho da Serra”, o “Ti Manel das Vacas, nos abandonou. E hoje ao admirar o que resta da floresta que ele tanto amava, uma lágrima teimosa escorre suave enquanto um sentimento de revolta e impotência nos invade, como o invadiria a ele se fosse vivo.

Da maneira natural como amava as Serras, como enfrentaria ele o estado calamitoso em que ficou tanta e tanta floresta? Não o sabemos, pois saber era adivinhar o destino que apenas ao Criador pertence, mas acreditamos que ao olhar tanta destruição, o “Velho da Serra”, soltaria uma das sua expressões tão peculiares. “Gente de um conto de diabos” , ou talvez fosse mais longe e praguejasse contra o diabo por ter colocado nas mãos dos homens o destino da terra que o viu nascer. E que diria o “Velho da Serra”, na sua sábia filosofia, moldada pelo cabo do arado e pelas intempéries do quotidiano, face às tentativas de resolução do problema  provocado pelo fogo?

- Já o estamos a ouvir dizer o que para alguns nunca deveria ser dito. Cremos mesmo, sem muitas hipóteses de engano, que veria em tudo isto, uma forma simplista de adiar o inevitável, e o inevitável é uma região onde as assimetrias de hoje serão mais profundas amanhã, pois nem todos conseguem compreender como se pode construir o futuro de forma sustentada.

Passados quase 3 anos, que hoje lembramos nesta homenagem, apenas se notam mais as posturas inqualificáveis dos que não pretendem a mudança sustentada. Prova do que falamos, é  a energia gasta em “lutas” cujo objectivo muitas vezes se adivinha mas raras vezes se confessa.

É como se o futuro estivesse previamente traçado.

Mesmo os que muitas vezes jogam sempre do lado oposto do campo, não aceitam jogar ao lado seja de quem for, ainda que o objectivo seja concreto e nobre. São nãos e nãos desmedidos e desconfiados, que geram atraso e geram desconforto dos que podem decidir mesmo baseados em parcos recursos. Por outro lado, quando há francas e históricas oportunidades, de fazer valer direitos e pontapear o presente rumo ao futuro, quedam-se  pelo conformismo e pelo imobilismo.

         Temos nos últimos tempos passado algum tempo no território, e cada vez mais sentimos ventos de mudança. Por vezes, entre visitas e conversas informais, descobrimos algo que nos faz sonhar com realizações futuras. Já abordámos o assunto anteriormente, mas nunca é demais relembrar.         Numa dessas conversas, com o Sr. Presidente da junta de Freguesia de Dornelas do Zêzere, pudemos verificar ventos de abertura, face ao largar da aldeia. Anteriormente, em conversa igualmente informal, sentimos por parte do Senhor Dom Eurico Nogueira, a mesma vontade, a mesma abertura. Talvez seja o que as serras urgentemente necessitam; abertura, abertura e mais abertura.

         O “Velho da Serra” céptico e muitas vezes pouco crédulo, talvez não fosse facilmente contagiado, mas temos a certeza que ao ser-lhe claramente explicado que se trata de um bem comum, até ele que nasceu em 1910 havia de compreender se fosse vivo.

         Bem sabemos que já não ecoam  pelos vales e serranias da Pampilhosa, os “cânticos” do carro de bois, nem se ouvem já as “pragas rogadas” aos animais, mas temos a certeza que onde quer que hoje o “Velho da Serra” se encontre, lá do alto ficaria contente de ver este concelho mais solidário mais unido e menos egoísta. No entanto, temos a certeza que se revoltaria contra  a impunidade dos que transgredindo a lei, destroem de forma vergonhosa e autista a casa onde ele criou os filhos. Perguntaria por certo ao Senhor Presidente da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra, “..mas o que raio está o Senhor a fazer nesse lugar que nem do PDM cuida?. “Porque fica o Presidente calado quando casas invadem a rua pública, quintais se unem a casas para formar um artigo único e assim fazer uma ocupação de 100% do solo?”. Em tempos apelidámos este tipo de atitude com um, “vamos a isto vilanagem”, temos a certeza que esta expressão também seria usada pelo “Velho da Serra” .

         De facto hoje lembramos a morte de um homem e homenageamos a verticalidade da sua vida, mas denunciamos os abusos dos “espertos”, que não olham a meios para atingir os fins que pretendem.

Hoje em Pampilhosa da Serra há lei, há um PDM, há abusos, mas parece não haver consciência preparadas para respeitar tudo isto. Parece haver ainda quem se julgue no tempo das ocupações selvagens de empresas, com a falsa promessa de recuperação, quando na sua mente, tal como no filme  “A Revolta dos Porcos”, apenas existe o intuito de engordar e enganar. Enganar os Serranos e engordar a sua bolsa.

         Em Pampilhosa da Serra, tal como em muitos outros locais de Portugal, do Minho ao Algarve, do Redondo ao Cadaval, tem que ser condenado e denunciado o “Xico Espertismo” de alguns, que apenas serve os seus próprios fins e prejudica a vida de muita gente. Por vezes são a única causa  de um ambiente pouco cordial entre as gentes que vivem no território.

         Dornelas do Zêzere a terra que o “Velho da Serra” tanto amou, não pode ser um paraíso para os que gostam de negligência e o “compadrio”, mesmo que isso implique algum remar contra a maré.

Luís Gonçalves

Lisboa Julho de 2006

 

 

O VELHO DA SERRA III

O VELHO DA SERRA

 

Quando em Agosto de  2003, no rescaldo da enorme tragédia que assolou Portugal, a notícia chegou, tudo levava a que, esse momento menos bom, fosse passageiro e breve. De facto, foi muito breve mas definitivo. “ O velho da serra”, desidratado pelo intenso calor de Agosto, entregava finalmente a alma ao Criador.

            Hoje, lá longe nas Serras da Pampilhosa, lugar dos meus encantos, motivo dos meus desencantos, placidamente tudo parece continuar como então. O rio embriagado e sem esperança, continua á espera de atenção, os pinheirais, os que continuam de cor verde, continuam á espera do malfadado destino. Aqui e ali, junto ao branco casario, uma réstia de esperança, sob a forma de um pomar bem cuidado, relampeja  futuro com tanta força, que nos faz esquecer as malditas maleitas que assolam as nossas serras.

 No vale da Ribeira do Pisão, as antigas hortas, foram limpas e cuidadas. Será que de novo se vai ver gente no “Favacal” ? Se a resposta ás nossas dúvidas é um sim seguro, então a esperança renasce. Se é não, a profunda tristeza que nos invade, vai percorrer a nossa carne como um punhal de fio rombo, manejado por um qualquer cruel carniceiro. Mais além,  junto á Adurão, a jovem cerejeira lembra que um dia, o pecado de roubar foi ali exercido á luz do dia, para que o “Velho da Serra” se deliciasse com frutos carnudos e sensuais. Ainda hoje, mostra o ramo amputado por amor, ainda mostra o defeito, como um hino magistral ao carinho pelo meu velho pai.

Mas nem a cerejeira nem eu próprio, sentimos que da nostalgia se faça futuro, tão pouco o futuro de uma cerejeira será promissor, se à sua sombra não se resguardarem ladrões de tão delicioso fruto. Nas estradas por onde outrora, o “Ti Manel das Vacas” passava, poucas almas se deliciam com a beleza do lugar. É assim por toda a serra, é assim por todas as Serras da Pampilhosa.

Teimosamente, governantes que pagam 380.000 por algo cujo orçamento era 60.000, continuam a não olhar de forma séria para as serranias para lá do sol pôr. Do seu bolso, tal como o mágico da cartola, tiram ideia confusas e sem nexo, cujo fim único, parece ser  somente, acrescentar alguns tostões mais à sua conta privada. Quando se trata de assuntos sérios, capazes de alterações profundas, são sempre questionados os votos que cada região pode ou não dar a determinado partido.

Se não vejamos a questão das Autárquicas; os partidos políticos, qual máquina infernal do destino dos pobres, decidem quem vai para onde, independentemente das suas qualidades, capacidade ou conhecimento da região que se entrega ao candidato. Felizmente que ainda não é assim nas Serras da Pampilhosa, mas um dia destes, já não admirava que para o lugar de presidente da Câmara de Pampilhosa da Serra o partido A ou o partido B decida colocar um seu candidato vindo dos confins de algum bairro lisboeta.

O “Velho da Serra”, perante tudo isto por certo torceria o nariz mas, ficaria sempre na vã esperança que algo mudasse para melhor. Devemos nós ficar também à espera? Quem nos responde a esta incerteza de ver uma população a envelhecer cada vez mais e o poder central a ignorar na mesma medida?

 

                                                                                   Luís Gonçalves 2005

 

           

O VELHO DA SERRA II

"O HOMEM DA SERRA II"

Um ano depois

 

 

            "Ó boi de um conto de diabos".  Assim se cumpria um ritual, misto de profano e sagrado, nos dias quentes de Verões idos à muito. Mas agora tudo terminou! O "Velho da Serra" morreu. Paz à sua alma, homenagem ao seu carácter.

            Faz este mês um ano que o "Velho da Serra", serenamente como viveu, entregou a alma ao Criador.

             Políticos armados de um cinismo, cujo limite dificilmente se vislumbra, dizem que o calor e o fogo que assolou Portugal em 2003 apenas tirou a vida a três ou quatro pessoas, agora dizem que foram 17. Nada podia ser menos verdade, por outras palavras menos polidas, é uma mentira descarada.

      O "Velho da Serra", o "ti Manel das Vacas",  foi um entre muitos que não suportou a onda anormal de calor que nos visitou tão inesperadamente como partiu.

Os seus mais de 90 anos, não suportaram a desidratação a que um corpo idoso foi impiedosamente sujeito nos dias de Agosto de 2003.

            Os idosos, tal como muitos outros grupos da nossa sociedade, não merecem a atenção devida por parte dos ministros que, "sentadinhos" nos seus gabinetes com ar condicionado vivem despreocupados no seu mundo artificial. Quando esses senhores, donos incondicionais dos seus cómodos feudos, reagem, normalmente já é tarde e questionam sempre o lado financeiro da questão.    Vergonha maior não pode haver!

            Passado um ano, "gira o disco e toca o mesmo", que é como quem diz, não se aprendeu nada. Quando o nada que se aprendeu se mistura com o nada das acções de cariz nacional, resulta numa mistura incolor de serras e vales sem fim de cor negra e desoladora.

É o fogo da incompreensão a queimar lentamente a nossa paciência. Mesmo as acções que justamente se empreenderam para minorar o sofrimento das populações afectadas, são verdadeiras obras de Santa Engrácia. Os aspectos mediáticos são mais importantes que a realidade no terreno.

            Vejamos por exemplo as indemnizações aos concelhos mais afectados pelos fogos de Verão. Foi em plena campanha eleitoral que os homens que estão à frente das nossas Câmaras, foram chamados à Guarda para receberem as sobras de  um orçamento destinado mais às mordomias dos "senhores” ministros e deputados do que a enfrentar os reais problemas de uma população castigada, pelas Manuelas deste mundo e por uma natureza inclemente.

            As perguntas são mais que muitas, sobram na medida proporcional em que faltam as respostas.

            Quantos aviões de combate a incêndios se podem comprar com um submarino? (.. que até tem torpedos!)

            Quantas camas de hospital se podiam obter, com o preço de um torpedo?

            Quantos aparelhos de ar condicionado, para lares, se podiam comprar com as regalias extras dos senhores deputados?

            Quantos anos teve o "Velho da Serra" que trabalhar, para obter 28 contos de reforma?

            Quantas reformas de 28 contos se podiam pagar, com a reforma de um deputado que trabalha meia dúzia de  anos no Parlamento?

            Quantos lares e associações podiam ser apoiados, com o valor dos cartazes do Senhor Santana Lopes?

            Quantos políticos serão necessários para compreender que a paciência dos Portugueses já arde como ardem as nossas matas?

            Quantos "Velhos da Serra", poderiam esperar mais uns "anitos" de vida, se, o cinismo se transformasse em justiça social?

            É o triste fado de um povo que tem de sobreviver num sistema em que para ser governo não tem que se ganhar eleições. São deuses e demónios de um sistema que mais se assemelha ao Comité Central de um qualquer partido da antiga visão de ver as coisas.

Na minha mente correm as palavras da cigana em "Cântico de Afectos" do Alexandre Duarte, "A sua  sina já vem de muito longe. Ela já lhe estava destinada desde o princípio do mundo, em que Adão e Eva cometeram uma maldade e o Criador, enraivecido, condenou Adão (e todos os seus descendentes) com o conhecido castigo: Comerás o Pão amassado com o suor do teu rosto.”

        __Credo! Como a cigana sabia da coisa, da vida dos pobres e desfavorecidos!

Só que na nossa “história” os Deuses são os que estão “lá”, longe de todos os “Velhos da Serra” deste mundo e das necessidades das populações mais desfavorecidas e das regiões mais afastadas. São esses mesmos Deuses que como diz o professor Vital Moreira, “pagam pelos benefícios dos ricos”, e ainda perdem o pouco que lhes resta. Reparemos nas carreiras de transportes de Pampilhosa da Serra.

            Tranquilamente como viveu, assim se foi um homem cujo carácter deveria ser seguido por muita gente culta. Nós, os que cá estamos ainda, provavelmente esquecemos muito rapidamente para embarcar em promessas e sorrisos, quando tudo o resto, o que mais importa, é relegado para o esquecimento

"Ó boi de um conto de diabos, raios te papem damonho", era assim o homem de quem tenho a honra de ser filho. Era assim o homem que, estou certo, podia servir de exemplo a muitos que cinicamente se

exibem na televisão e nas revistas coloridas para todo mundo ver que afinal além de cínicos são vazios.

 

                                                                                Luís Gonçalves 2004

             

O VELHO DA SERRA

Um Homem da Serra

 

            No decorrer da nossa história recente, a nossa gente fez-se notar de forma bem vincada, tanto na política como na religião, ou mesmo na condução de empreendimentos económicos.

            De entre os homens e mulheres, das Serras da Pampilhosa, o dornelense Eurico Dias Nogueira, é sem duvida, figura de proa neste barco, tantas vezes esquecido do poder central na calmaria do tempo que passa. Comunista  para uns, fascista para outros, demasiado conservador para os modernistas, foi um homem grande no seu tempo, tantas vezes incómodo para o poder da sua época.

            Mas as Serras da Pampilhosa, não devem nunca ser lembradas apenas pelos feitos dos seus filhos mais ilustres. O homem comum, sempre de uma personalidade própria, marcou de forma inigualável vales e serras, campos e aldeias, mostrando hoje como ontem,  que  homens assim são raros de encontrar.

            O homem anónimo que pretendo lembrar, é bem o exemplo, de como na vida dura das serras, se acham almas imperturbáveis capazes de dar lição aos mais letrados das grandes cidades.

            Ainda a madrugada mal começava, levantava-se este homem para tratar dos bois, que em pouco tempo devem estar atrelados ao carro, para o começo de uma jornada que apenas o calor de Agosto faz terminar. Com os bois ao carro, lá ia ele caminho fora, pois estradas nesse tempo eram poucas.

 Carregar um barril de resina para o carro de bois não era para todos. Artimanhas várias, faziam parecer fácil  a dura tarefa de carregar a resina até ás estradas principais. Esforço quase irreal, aceite sempre com a calma e a tranquilidade, de quem aceita o destino que Deus lhe dá.

            ___ “Anda lá boi de um conto de diabos, raios te partam damónho”...... E assim se cumpria o dever com suor e lágrimas.

            Quando o sol despontava, já o velho ganhão recolhia o gado, pois o calor impossibilitava o trabalho, estafando o gado e a dejua esperava á sombra de um pinheiro. Um pedaço de pão, acompanhado de um pouco de chouriço e pouco mais. Algumas vezes, a água para matar a sede era bebida directamente do ribeiro com a palma da mão em concha.

            O restante do dia, era passado a desfolhar o milho ou a descanar o mesmo, para que nada se perdesse. Á noite, acompanhado da mulher e de alguns dos dez filhos, quando o mais comum dos mortais procurava a cama, recolhia a palha seca que a noite tinha amaciado. O sono e o cansaço eram duros de roer, e muitas vezes os mais novos adormeciam por entre faixas de palha seca. Com o luar e as estrelas por companhia, viviam-se momentos que o tempo por si só não faz esquecer.

            Era dura a vida naquele tempo. Mestre do lagar da Barroca do Zêzere, ganhão, e pai de família tinha tempo para um copito na taberna do Aires quando o tempo e o dinheiro o permitiam. Por vezes, quando um copito a mais o fazia gracejar, dizia rindo:

____A água é pior que o vinho, já perdi muitas jeiras por causa da água, mas nunca perdi um dia por causa do vinho.

Contava histórias de transportes clandestinos de volfrâmio, o “mneral” como ele chamava o minério das minas da Panasqueira. Sempre com um enorme orgulho no olhar, mas nunca esquecia os guardas, que um dia o encontraram pela noite dentro com o seu carregamento.

Em casa, a vida era simples. O feijão seco e a couve, base sempre presente na alimentação, era substituída pelo feijão verde no Verão. Tudo isto acompanhado por broa de milho, pois que o pão de trigo era um luxo. A rotina á mesa era apenas quebrada em dias de festa, ou em ocasiões muito especiais, no entanto havia sempre um prato de sopa para o velho Teruta, que tinha hábitos de vadiagem, comer na escadas de pedra.

No Inverno, quando o rio, em Dornelas, não permitia a passagem para a outra banda, o mestre do lagar, passava semanas dormindo nas ceiras do lagar, separado da mulher e dos filhos por um rio e escassos dois quilómetros. Os bois companheiros inseparáveis destas lides, esgotavam-se puxando o carro no lamaçal que levava ao lagar. Molhado até aos ossos, a roupa secava no corpo vezes sem conta, mas o azeite louro e de invulgar pureza, fazia a sua fama.

A mulher, intercalava o cuidado com os filhos e a horta, com breves visitas ao seu homem que estava no lagar da Barroca.

Na canastra de verga, levava sopa acabada de fazer e roupa remendada e limpa pois o mestre do lagar tinha de ter um ar apresentável. Para os filhos mais novos, a visita ao lagar era quase uma festa. O lugar era dotado de uma certa magia, como se de um conto de fadas se tratasse.

Na Primavera, de sol a sol, lavrava e gradeava a terra. Sendo mestre na sua arte,  era o preferido para o amanho da terra. Muitas vezes, dias e dias de trabalho, tinham como único pagamento, a palha para o gado proveniente dos milheirais, ou simplesmente  o almoço. Carregar lenha, ou mato para acomodar o gado que se encontrava nos currais. Sair com o cantar dos galos, e regressar com as estrelas noite fora, era o dia a dia de um homem que não tinha Dias Santos nem Feriados pois nesses dias, “também se comia”.

Nas terras vizinhas o “Ti Manel das Vacas”, era sempre acolhido com o sorriso com que se acolhe um familiar ou um amigo. Era mesmo isso que se sentia por ele, uma amizade enorme, pois o ganhão assim o merecia. Tinha sempre uma palavra, enquanto caminho fora, “a junta de bois” avançava  pachorrenta,  pois já sabia o caminho para casa.    

Da simplicidade deste homem, nasciam pensamentos de revolta, que eram imediatamente calados pela responsabilidade de proteger os seus, de eventuais menos bons vizinhos. No entanto, este indomável serrano que moldava a terra a seu gosto, nunca foi moldado pelo conformismo. Hoje, com os seus mais de noventa anos, mostra rasgos de uma nobreza inconfundível, de um carácter afável e doce, enfim é um homem das Serras da Pampilhosa.

 

Luís Gonçalves 2003

OS DONOS DA ÁGUA 3ª PARTE

OS "DONOS DA ÁGUA" PARTE III

"Onde vais rio que eu canto?"

 

         "Onde vais rio que eu canto? Quero ver teu novo Norte, Há no cais para onde vais, mãos de vida, mãos de morte.” Com alguma carga de mágoa, era assim que no ano de 1970 Sérgio Borges embalava os nossos corações com a bela melodia que nos representou no Eurofestival. Hoje, distante desses dias, com a mesma mágoa olhamos o Zêzere, e perguntamos; “Onde vais rio que eu amo?”.  O que pareceria à partida uma resposta simples e infantil, faz tremer a alma de qualquer um que goste daquele rio da nossa infância, de tão abandonado que se encontra.

         Em "os Donos da Água" parte II, falava-se no açude a norte de Dornelas do Zêzere e a sul da mini-hídrica de Barroca do Zêzere, hoje voltamos de novo ao assunto. O local, antes paradisíaco, é hoje um autêntico cenário de guerra  homem natureza, onde o primeiro ganha, sem querer entender que na verdade perde de forma primária, e compromete o futuro. Neste aspecto, os "Donos da Água", ou de tanta seca não vêm, ou mais grave, fingem não ver. As populações revoltam-se, mas de tão desunidas que se encontram nada podem fazer. Será que há neste tipo de projectos a ilusão de novas oportunidades de emprego? Não o cremos; mas se nos enganamos então do “mal o menos”, que venham os novos empregos.

         Retornamos também à Barragem de Santa Luzia em Pampilhosa da Serra. Aqui pasmamos de tanto terceiro “mundismo”. A albufeira junto ao paredão parece um mar de lixo. Ou será que é o mar de lixo que parece a bela Barragem de Santa Luzia? Venha o diabo e escolha. A boiar encontramos de tudo, mas principalmente quantidades enormes de cinzas. Claro está que este fenómeno seria sempre inevitável, face ao desastre que foi Agosto de 2005, mas eternizar este estado calamitoso é outra história. Uma destacada e estimada  figura de Pampilhosa da Serra, dizia em tom magoado; "  se fosse um particular já tinha uma multa e bem grande". De facto é verdade, mas "Os Donos da Água", provavelmente apenas vêm o que querem ou o que é mais cómodo para a manutenção do seu "estado de graça".

         Mais abaixo, junto a Álvaro, o cenário é idêntico a Santa Luzia. Talvez aqui a quantidade de "material estranho" que se encontra na água não seja tão significativo, face ao enorme tamanho da albufeira da Barragem do Cabril, mas as razões que levam à total despreocupação por este facto são as mesmas. Será que o INAG não abre a "pestana"? Ou as Serras da Pampilhosa ficam assim tão longe, e "Os Donos da Água", não sabem onde fica?

         Numa telenovela, daquelas que nos entram abusivamente em casa a toda a hora, alguém, perguntava onde ficava o Fundão.  Bem, estou crente que é uma gafe do novelista, pois qualquer pessoa sabe onde fica uma das cidades mais promissoras da Beira Interior. Mas perante esta cena começamos a perguntar a nós mesmos se o INAG sabe onde ficam as Serras da Pampilhosa. Se de facto não sabem, ficamos desde já à disposição para servir de guia, e se necessário mostrar como se recebe bem nas Serras. Mas não esqueceremos nunca o nosso propósito.

         Mas voltando à água na Barragem de Santa Luzia. Nem só madeira queimada e cinzas há dentro de água, o que muito dá nas vistas é a variedade de lixo que se junta no local. Neste ponto a Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra poderia dar uma pequena ajuda. Durante o 2º Congresso Pampilhosense, o Grupo Temático da Água, apresentou uma ideia que colocada em prática poderia aliviar um pouco o que hoje tanto nos incomoda. Estamos a falar do “Projecto de Regulamento Municipal de Protecção, Limpeza e Desobstrução das Linhas de Água do Concelho de Pampilhosa da Serra”. Claro está que este projecto tranformado em Regulamento Municipal, por si só não resolveria em definitivo o problema. Mas a escola poderia dar uma “ajudinha” alertando de forma persistente os mais novo para esta problemática, e provavelmente através dos alunos atingir-se-ia os pais que de certa forma ficariam mais receptivos a aderir à melhor manutenção dos cursos de água, sejam eles permanentes ou sazonais.

         Por certo valerá o esforço, e no final, todos beneficiarão com este acto tão simples como é o de não "sujar" os cursos de água. Com esta atitude simples, mas possível, talvez a CMPS contribua para acordar "Os Donos da Água", para um problema real deste recurso tão valioso nas nossas Serras da Pampilhosa, já que pela parte dos mesmos não houve interesse em participar no 2º Congresso Pampilhosense onde um dos temas era precisamente a Água.

 

 

OS DONOS DA ÁGUA 2ª PARTE

OS DONOS DA ÁGUA PARTE 2

 

A saga continua. Lentamente, como uma doença incurável, interesses corporativos e  privados endinheirados, num violento ataque aos parcos recursos da Beira Serra, avançam ao encontro do domínio total. Qual cancro maligno, decidem do futuro da água, como um carrasco decide da sorte da vítima manietada, sem que esta se dê conta que ao seu alcance estão todas as armas de defesa. Qual lobo esfaimado entre cordeiros, homens e máquinas de fazer dinheiro, avançam profundamente na Beira Serra, sem que nada os detenha.

A nossa odisseia maligna começa na paradisíaca Barragem do Alto Ceira. A estonteante beleza da albufeira, esconde o “vírus” que vive no seu seio e vem  depois condicionar todo o ecossistema do Rio Ceira. Começa desde logo junto ao paredão, a cor do precioso líquido é esverdeada e macilenta, a ausência de peixes é notória, e como se não bastasse o caudal libertado para o rio é notoriamente insuficiente.

E que fazem os “Donos da Água” ? Nada....

O INAG, de acordo com as poderosas hidroeléctricas, não se digna considerar tal um problema. No entanto, se um qualquer residente pretender implementar algum projecto de desenvolvimento local, aí sim, os senhores mandam e desmandam.

Ironicamente simples, simplesmente irónico.

Viajamos para sul. O Rio no seu percurso sinuoso, saltitando de pedra em pedra está sedento de água, está morto de vida. Não tenhamos dúvida, os estudos que falam de trutas para pesca desportiva, não passam disso mesmo, estudos, sem qualquer realidade.

 De repente, um buraco, uma enorme bocarra na montanha, é o túnel que rouba o rio, o ladrão que encaminha o precioso líquido para S. Luzia. Obra do esforço dos homens, símbolo da audácia dos Beirões, no entanto uma tragédia para o rio. Com o coração despedaçado, viajamos para sul. A Barragem de Santa Luzia é o nosso destino.

É linda, sempre foi muito bela. Como que implantada por “ titãs”  entre os penedios, ela lá está. Bela e sagrada, tranquila e pura, escondendo o seu terrível segredo. Já não pertence às populações locais, é pertença dos “Donos da Água”.

Tal como a escrava ao mudar de senhor, a Barragem chora de tristeza, de mágoa, de falta de oportunidade para servir o seu legítimo dono. Aqui e ali, sente-se alguma alegria. Entregue aos seus mais directos proprietários, a Barragem de Santa Luzia, dá-se aos residentes como uma suave amante em dia de festa. É a natureza no seu melhor. Mas os olhos levantam-se, e ao longe, à distância de um tiro, enormes gamelas de betão, lembram que tudo é temporário, lembram que a alegria do momento é efémera.

Como uma prostituta, explorada e maltratada pelo pertenço chulo, a Barragem sabe que um dia nem aos seus se vai poder entregar. Então chora, chora lágrimas de sangue, chora de raiva, chora da sua própria impotência. Quer ser voluntariamente possuída pelos Beirões e não à força pelas Águas de Portugal.

Quer ser comandada pelos que sempre a bajularam, idolatraram, amaram, respeitaram, e não pelos novos “Donos da Água”. Chora porque gostaria de dar mais de si à Ribeira da Pampilhosa, e não pode dar se não uns parcos e míseros metros cúbicos de água. Chora porque não quer dar tudo ao Rio Zêzere, que doente à muito tempo também ele chora por melhores dias.

E que fazem os “Donos da Água” ? Nada....

 

O INAG, está mais interessado em condicionar o desenvolvimento, em negociar com “os grandes”, que de grande apenas têm as suas contas bancárias engordadas à custa das populações locais.

Seguimos viagem para o Rio. O Zêzere, ora calmo ora intranquilo, guarda nas suas margens todos os segredos que as Rodas de água lhe contaram em noites de luar. Guarda entre os salgueirais, o murmurejar dos velhos açudes, quando as azenhas lhe cantavam histórias de amor e de embalar. Guarda os segredos como se de um precioso trofeu se tratasse, pois que até açudes desaparecem para dar lugar a megalómanos projectos.

Mas no seu leito a morte espreita. Anos e anos de desenfreado desenvolvimento a montante, levam o nosso amigo Rio a uma enfermidade de cura muito difícil. As cidades cresceram, os homens sonharam, e o rio sofre. Fundão, Covilhã , Alcaria, Minas da Panasqueira, entre outros tantos focos de doença.

Não foi necessário qualquer tipo de preocupação pois a sul é terra de ninguém. É terra dos Serranos, não são necessárias cautelas, pois entre os penedios a morte tem tempo de se depositar e não invadir a “civilização” de Lisboa. Foi, e é, e provavelmente vai continuar a ser assim. “Ah sorte madrasta esta de viver longe do mar!!!!!. Ah sorte cadela, de ter nascido entre penhascos e pinheirais.!” A cigana tinha razão, “..a vossa sorte está traçada desde o berço até ao túmulo”

E que fazem os “Donos da Água” ? Nada....

O INAG, e os seus “patrões”, estão mais preocupados com o regadio de campos de golfe, ou tão somente preocupados com os seus poleiros. Nesta quinta à beira mar plantada, é muito mais importante o parecer que o ser. Tudo se passa na paz dos anjos, incompetentes não há, competentes pode ser que um dia haja, o poiso dos “galos profissionais” é que é importante. Reparemos mais uma vez no binómio, INAG, DESENVOVIMENTO. Não rima, não casa, não é necessário rimar, não é importante conjugar.

A nossa viagem, poderia continuar, mas a nossa alma está partida de tanta incerteza, o nosso peito dói de tanta tristeza.

Nas nossas cabeças, correm cenários catastróficos, mas também correm algumas certezas que, recusam um baixar de braços. A nossa alma, esse recanto mais profundo que o mar largo, amacia-se ao contemplar as Serras da Pampilhosa, para se tornar áspera ao ver o trabalho dos homens. A natureza faz, o homem desfaz, e os Beirões apanham com os entulhos desta sociedade de dinheiro e vilanagem.

Na nossa sacra e santíssima ingenuidade, ocorrem perguntas de resposta mais do que evidente. Mas mesmo assim, sabendo que são palavras para o vento levar para longe, elas saem em catadupa por entre o nó que nos aperta a garganta.

 E se a água fosse dos seus proprietários, e se os seus proprietários fossem os Beirões? E se as margens da albufeira de Santa Luzia fossem um polo de desenvolvimento local?

Lindo este cenário!

Irreal?

- Não sabemos, talvez.

Nesta viagem virtual pela realidade, vimos e sentimos o coração da Serra, provámos o sabor da água, e sem medo exorcizámos fantasmas. Mas o nosso medo continua. A duvida que nos assaltava, continua a tomar de assalto o nosso coração. O nosso lado realista continua a sobrepor-se ao nosso lado idealista. Como se das traseiras de uma casa se tratasse, as capacidades hídricas de Pampilhosa da Serra, morrem nas mãos de estranhos sem proveito para os locais, e isso dói.

Os “Donos da Água”, deveriam sentir como sentem os Beirões, deveriam amar como amam os Beirões, e não deveriam comportar-se como servos subservientes perante os grandes interesses. Os “Donos da Água”, têm que provar que no âmago da sua filosofia, não é omnipresente o princípio fundamental, que o “Zé” nada tem a ver com o assunto. É de vital importância, que,  provem de forma cabal o seu interesse na defesa dos mais elementares princípios do bom uso da água, do bom uso dos recursos, como factor de desenvolvimento local, um desenvolvimento sustentado.

Nesta viagem virtual pela realidade, sentimos e continuaremos a sentir, que levar água às populações é sinónimo de desenvolvimento, desde que para isso os servidos não tenham que vender coiro e cabelo para poderem partilhar algo que sempre lhes pertenceu. Nesta virtual passagem pelas Serras da Pampilhosa, fica em nós o desejo de voltar, mesmo que o coração doa, mesmo que as lágrimas da incerteza escorram no nosso rosto endurecido pelo frio de Inverno, pelo inclemente sol de Verão. Mesmo que o negro com que se vestem as nossas Serras da Pampilhosa, nos afrontem os sentidos e nos causem vontade de desistir.

     Podemos até morrer de cansaço, mas não nos cansaremos de lutar.                                                                                                                

OS DONOS DA ÁGUA

OS DONOS DA ÁGUA

 

 

         Diz a constituição no Nº1 do artigo 13, o seguinte, Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”. De facto a nossa Lei fundamenta diz ainda, e passamos a  citar,Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever..”.

Que falta de realidade! Nunca como agora se aplicou tão bem a velha máxima, de que "Somos todos iguais mas uns são mais iguais que outros”.

         Lendo  a vida à sombra da Constituição de Portugal, facilmente se verifica que, certas e determinadas instituições se encontram irremediavelmente no lado oposto da nossa Lei Fundamental.

         Vejamos então:

          O Instituto da Água, INAG, é uma instituição que em principio, e segundo a filosofia para que foi criado, serve para, e continuamos a citar, “....proteger e valorizar os recursos hídricos nacionais”. Irónica esta realidade que,  nós, os contribuintes mais assíduos, não vislumbramos como tais acções no nosso pacato dia a dia estão a funcionar.

Comodamente sentados nos seus bem equipados gabinetes de Lisboa, comandam e descomandam todo e qualquer assunto relacionado com as águas em Portugal, sem no entanto se preocuparem com a realidade das populações locais.

Qual timoneiro à frente da caravela, o Instituto da Água, reprova e aprova projectos e mais projectos, sendo que o sim ou o não tem o peso do poder das partes envolvidas e não o efeito que os projectos têm, nas populações locais. Dirão que o bem de todos se torna prioridade sobre o bem de alguns poucos.

         Exemplo do que acabamos de citar é a construção na Barragem de S. Luzia dos depósitos das Águas do Centro.

         Quanto tempo foi necessário para a sua aprovação?

         Quem  permitiu a construção em tal local?

         Quem teve alguma vez a iluminada ideia de ocupar aquele local?

Para lá de cego, tem que ser um pouco louco para se permitir a tamanha aberração. Tamanha na medida em que, destrói parte da paisagem da Barragem de S. Luzia, cego porque é necessário não ter visão, ou ter demasiada visão para se "roubar", às gentes locais a possibilidade de descansar em local paradisíaco que era dos Beirões e agora das Águas de Portugal. Ou vão dizer-nos que findas as obras a mata é devolvida às gentes do territórios? Pelo menos aqui o benefício público é facilmente justificável, desde que se esqueça tudo o resto.

         No outro lado da balança, colocamos, projectos que as Câmaras Municipais pretendem ver aprovados. Têm anos de espera, pareceres jurídicos inesperados,

exigências megalómanas que impossibilitam o andamento dos mesmos, logo impedem a evolução e o desenvolvimento de muitos locais.

É o assalto final à água. É o golpe que faltava sobre os recursos que os locais já usam com dificuldade.

"Os Donos da Água", merecem que, e ainda estamos a tempo,  as populações locais digam basta. Que mostrem o quanto necessitam dos seus próprios recursos para sobreviver.

         É irónico, mesmo indigno de uma democracia, que meia dúzia de senhores, possam dispor de forma arbitrária do futuro das Serras da Pampilhosa, sendo as populações locais, meros espectadores deste, "vamos a isto vilanagem". Os Pampilhosenses deveriam ter uma palavra a dizer, e não ser espoliados de um bem que lhes pertence.

Já se pensou em pagar aos locais pela energia produzida e exportada para fora da sua região? Já alguém pensou em pagar-lhe a água que lhe tiram das barragens em vez de os obrigarem a pagar mais? E os "Donos da água", já pensaram controlar os caudais mínimos que são lançados nos cursos de água pelas hidroeléctricas? Ou as hidroeléctricas são demasiado importantes para serem incomodadas? É nas barbas do INAG, ou com a sua conivência, que se cometem crimes ambientais no Rio Zêzere como aquele do açude das Alagoas a sul de Barroca do Zêzere.

         Neste quadro algo cinzento, o Instituto da Água, aparece como uma muralha intransponível, frustrando as mais licitas expectativas. Deveria ser um motor de desenvolvimento sustentado, gerindo recursos hídricos de forma correcta, e não

segundos os interesses das corporações. Mas nada disto acontece.

Discutir a problemática da Água também não era incorrecto de todo. O que se verificou com o 2º Congresso Pampilhosense é uma vergonha. Quatro meses de intensos contactos terminaram na impossibilidade de um representante do Instituto estar no Congresso Pampilhosense. Mesmo, quando determinados elementos do INAG admitiram que a postura era incorrecta e lamentável os todo poderosos "donos da água” não se dignaram comparecer. Preferiram antes empolgar falsos incidentes, mostrar injustificadas indignações. Era de todo mais fácil.

É triste que, os Pampilhosenses não mereçam por parte desses Senhores um pouco de atenção, principalmente quando antes das eleições lhes tivesse sido dada a esperança, de se poder discutir tão importante problemática.

         Antes das eleições, o Sr. Presidente do INAG, Dr. Orlando Borges, fez saber através de mensagem electrónica que estava interessado em participar no 2º Congresso, depois das eleições tudo fez para não comparecer. As desculpas eram muitas e todas diferentes: Ou era a incerteza da continuidade, ou eram viagens , e por fim a desculpa da seca.

É de lamentar que assim seja.

         Como cidadão eleitor e exercendo o meu direito de cidadania, solicito ao Senhor Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, que pense seriamente na continuidade do presidente do INAG e apelo a todos os Beirões que façam idêntico pedido, pois o INAG é um instituto que tem obrigações de serviço público e não pode nunca demitir-se de tais funções, mesmo que a discussão seja em Pampilhosa da Serra, que fica muito para lá do sol pôr.

Os Pampilhosense, conscientes do seu valor e das suas debilidades, não quererão ter no INAG, o papão que lhes ameaça a existência a cada passo, e muito menos ser olhados como se olha um grupo de marginais.

    O Instituto da Água, enquanto tal, deve ser liderado por gente que respeite quem os sustenta. Já basta de a Beira Serra ser o parente pobre de um País virado para o mar.

Se não temos votos suficientes para ter palavra, isso deve-se a gerações e gerações de políticos, que nunca olharam para o interior de Portugal, como território a desenvolver. Sabemos, não se pode negar, que o fantasma da desertificação paira sobre nós, mas sabemos também que não estamos dispostos a ver o futuro escapar-se como se o território do interior não tivesse qualquer relevância. Institutos como o INAG

deveriam ter à sua frente pessoas cuja competência técnica fosse acompanhada com um largo sentido de responsabilidade. Não nos parece que o Sr. Presidente Dr. Orlando Borges olhe para a Pampilhosa da Serra como uma responsabilidade a assumir.

        Finalmente o nosso apelo vai para os deputados do circulo eleitoral de Coimbra. Meus Senhores, é chegada a altura de cumprirem a missão para a qual foram eleitos. Olhem para as Serras da Pampilhosa como parte dos responsáveis pela vossa eleição. Seria de mau tom, e de inqualificável falta de respeito, que, agora confirmados em S. Bento esqueçam por completo um pequeno punhado de gente que contribuiu para a vossa eleição.

         Sejamos coerentes e inconformados, "..os Serranos merecem, a Pampilhosa da Serra merece....."

 

                                                                           Luís Gonçalves